quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

ORGULHO DE SER PATIFE!



PATIFE BAND. Corredor polonês. 1987. WEA.


Paulo Pagni, que viria a se tornar baterista da RPM, foi membro da Patife Band, a qual tinha como mentor Paulo Barnabé, irmão do Arrigo Barnabé, promessa da MPB, com passagem em Festivais, autor de Clara Crocodilo.
Corredor polonês foi lançado em 1987, quando o rock nacional foi invadido por lançamentos de novas bandas, aproveitando-se a fase de boa vendagem de discos.
Em algumas passagens Corredor polonês nos faz lembrar de Cabeça dinossauro, dos Titãs, lançado no ano anterior, por sua batida forte e vocais pesados, em algumas faixas.
A música que abre o trabalho dá título ao disco e é puro clima claustrofóbico, com nuances de rock gótico e pós-punk, além de riff que cola nos ouvidos. Depois temos Pesadelo, parceria dos irmãos Barnabé, com vocal gutural e mais porrada punk, seguida por Chapéu vermelho, uma paródia da história de chapeuzinho e o lobo mau, com estilo meio surf music e new wave, uma das minhas preferidas, ao lado de Vida de operário, de autoria da banda Excomungados, que ficou zilhões de vezes melhor na versão da Patife Band.
Ainda no lado A (lembre-se que estamos falando de um disco de vinil, que talvez, dependendo de sua idade, você nem saiba o que é isso) temos Tô tenso, mais pancada na batera e mais riff de guitarra, fechando com Poema em linha reta, onde pegaram um poema de Fernando Pessoa e meteram porrada, ao estilo punk.
O lado B tem em destaque, além de Vida de operário, já descrita, a música Pregador maldito, que, inicialmente parece uma versão de Alvin e os Esquilos, mas logo mostra sua verdadeira face, com envolvente ritmo e cadência.
Fechando o disco, Maria louca, uma instrumental com clima de jam session.
Pouco conhecido, e bem menos reconhecido, Corredor polonês da Patife Band é uma pérola jogada aos porcos dos anos 1980, que merece nosso reconhecimento.
Mistura de Renato Borgheti com Sex Pistols, Os Incríveis e New York Dolls.
Vale a pena ouvir.



Ouça Corredor polonês (a música): https://youtu.be/o7ARYFhz3Fw

TRACK BY TRACK
Lado A
1.Corredor polonês (Paulo Barnabé) ***
Clima caustrofóbico, batida marcial, remete ao rock gótico.
2.Pesadelo (Paulo e  Arrigo Barnabé) **
Batida rápida de hardrock e punk, vocal gutural.
3.Chapéu vermelho (Ronald Blackwell) ***
Surf music com new wave. Chapeuzinho vermelho às avessas.
4.Tô tenso (Paulo e Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção) ***
Punk em ritmo alucinante. Vocal berrado. Bateria pesada.
5.Poema em linha reta (Fernando Pessoa) **
Poema de Fernando Pessoa em ritmo de porrada punk.

Lado B

1.Teu bem (Paulo Barnabé) **
Bolero. Lembra O milionário.
2.Três por quatro (Paulo Barnabé) **
Bateria tribal abrindo. Porrada punk. Viagem psicodélica com trompetes e depois + porrada.
3.Pregador maldito (Paulo Barnabé) ***
Você não tem escolha. Alvin e os esquilos. Ritmo e cadência.
4.Vida de operário (Excomungados) ***
Música dos Excomungados. Letra proletariado, música ritmada.
5.Maria Louca (Patife Band) **
Cara de Jam. Instrumental.

Legenda das notas para as músicas:
* Kim Novak; ** Grace Kelly; *** Marilyn Monroe.

BROCK!

O rock produzido nos anos 1980, foi o mais visceral, poético e anárquico de toda a história brasileira, em um tempo onde não existia Anita, nem Pablo ou Tyrone Cigano.


Mas se você pensa que os “golden years” do Brock (alcunha criada pelo jornalista Artur Dapieve para o rock brasileiro anos 80) se resume a Legião Urbana, Titãs e Paralamas do Sucesso, você está redondamente enganado. Há um oceano de bandas de rock tupiniquins que não conseguiram alcançar o estrelato, e nem frequentaram o palco do Cassino do Chacrinha nas tardes de sábado, em meio ao rebolado provocativo de Rita Cadilac e companhia.
A explosão do rock nacional começou no longínquo ano de 1982, com o lançamento do compacto da Blitz, Você não soube me amar. A partir daí, novas bandas começariam a surgir. A linguagem musical iniciara uma mudança. Os generais ainda estavam no poder e logo a política estaria na pauta do rock.
O movimento punk, oriundo da Inglaterra teve papel importante na formação do novo rock brasileiro na década de 1980.
Depois, em 1985, o festival Rock in Rio, faria o rock estourar de vez nas rádios e televisões de todo o país.
Surgiria o rock de São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre e Salvador. Cada cidade com suas peculiaridades e características próprias, enriquecendo o cenário e a história.
Por trás da trilha de sucesso de RPM, Capital Inicial e Engenheiros do Hawaii, seguiam bandas de grande relevância, esquecidas no ostracismo, como os Cascavelles, Cabine C, Finis Africae, Nau, Patife Band, Picassos Falsos, Replicantes, e por aí vai.
Com o fim da década de 1980, a redemocratização política e a ascensão de Fernando Collor, o rock foi perdendo espaço na mídia e reduzindo suas vendas. A década de 1990 pertenceria a Zezé di Camargo, Leandro & Leonardo e seus similares.
O advento da internet proporcionou a democratização da informação, tornando infinitamente mais fácil o resgate da produção de tais bandas.
Cabe a nós mantermos acesa a pira da memória.

Salve, Rock!